Legalismo(s)

por Mark Jones

Legalismo é um assunto complicado. Não há um crente vivo no mundo que não lute com tendências legalistas. Para diagnosticar este problema, nós precisamos olhar para os diversos tipos de legalismos que encontramos na igreja e nos nossos corações a fim de entendermos o conceito. Definições claras nem sempre ajudam (como no caso de antinomianismo). Ao mesmo tempo que há uma forma de legalismo que condena a alma, há outros tipos de ideias legalistas pelas quais cristãos podem não necessariamente correr o risco de ir para o inferno, mas que são, todavia, errôneas.

Creio que é importante distinguir tipos diferentes de legalismo. Sem dúvidas, algumas das categorias abaixo entrelaçam umas com as outras, mas devemos ressaltar que cristãos, que irão para o céu, ainda lutam contra o legalismo. Em outras palavras, nós não somos legalistas de facto (em termos da nossa identidade), mas ainda temos tendências legalistas (por causa do pecado que habita em nós).

Ao mesmo tempo, jamais devemos esquecer que há um tipo maligno de legalismo condenatório da alma que levará pessoas ao inferno. Nós precisamos falar sobre este Legalismo (“L maiúsculo”) da forma como os autores do Novo Testamento falam. Somente a Fé e Somente Cristo são princípios da Reforma sobre os quais nós não podemos nos dar ao luxo de hesitarmos.

Deste modo, há duas formas principais de legalismo: Legalismo condenatório da alma e legalismo prejudicial à alma. O primeiro sempre inclui o último, mas o último não necessariamente inclui o primeiro.

1. Legalismo condenatório da alma

Você precisa fazer algo além de crer em Cristo para ser salvo. Veja o livro de Gálatas (ex. Gl 5.2). Este tipo de legalismo leva pessoas ao inferno (Mt 23.15).

Ligado a isto está o “legalismo soteriológico” pelo qual até mesmo algo bom – isto é, a lei de Deus – é usado impropriamente, e pessoas acreditam, por exemplo, que precisam de suas boas obras para compensar as suas obras más para que sejam salvas. Elas creem que são justificadas pelas obras. Todas as religiões, exceto a religião verdadeira (isto é, Cristianismo), defende esta ideia.

Estes tipos de pessoas, algumas das quais pertencem à igreja (ex. Fariseus), são geralmente bons em guardarem as suas leis feitas por homens, mas não muito boas em guardarem a lei de Deus (Mt 23).

2. Legalismo Prejudicial à Alma

A) Legalismo “O Tempo ‘Cura’”

Esta forma de legalismo não levará você ao inferno, mas prejudicará a sua alma. Como cristão, você peca, e peca frequentemente. Mas quando você enfrenta a culpa do seu pecado e coloca algo entre a sua alma culpada e o perdão gratuito de Cristo, você caiu na armadilha do legalismo prejudicial à alma.

Alguns cristãos deixarão passar um tempo antes de pensarem que eles podem ir à Deus. Outros se satisfarão com formas de penitências para ajudarem Deus a perdoar. E assim por diante. Quando pecamos, a primeira e melhor coisa que podemos fazer é nos arrepender e aceitar o perdão gratuito de Deus.

B) Legalismo Bem-Intencionado

Intimamente ligado ao legalismo prejudicial à alma, da salvação com base em obras, está o legalismo bem-intencionado. Você sabe que Deus requer que você o obedeça, e você sabe que deve possuir o fruto do Espírito, e você anseia por retidão, mas acaba buscando estas coisas com suas próprias forças, não porque você é mau, mas porque você não experimentou a graça de Deus por completo ou ao menos pediu por sua graça.

O tratado de John Owen em Romanos 8.13 não é leitura obrigatória (veja abaixo). Mas eu acho que ele tem algumas coisas bem perceptivas a dizer sobre a forma como cristãos tentam lidar impropriamente com pecado. Ele também tem alguns conselhos muito bons sobre como os cristãos devem depender do Espírito Santo para lidarem com pecado.

C) Legalismo Místico

Crentes podem submeter a si mesmos e a outros debaixo de uma lei que Deus nunca os submeteu. Eles falam “Deus me revelou…” não porque as escrituras deram um mandamento, mas por causa de um sentimento ou “voz” nebulosos.

Imagine que Deus tenha dito a um rapaz para casar com certa moça. Se este é realmente o caso, não estará a moça obrigada então, a obedecer o Senhor porque o jovem rapaz ouviu do Senhor que ele teria que se casar com ela?

Pessoas involuntariamente podem fazer de Deus um legalista quando afirmam que ele lhes disse para fazer algo específico.

D) Legalismo da Criação de Filhos

A forma como vemos a maneira de outros pais criarem seus filhos, até mesmo nosso próprio cônjuge, pode ser legalista. As altas expectativas que temos para os nossos filhos quando o nosso próprio exemplo é tão deplorável, muitas vezes, revela um espírito legalista.

Nós queremos crianças obedientes (e com razão), mas nós produzimos moralismo nos nossos filhos. Ele podem ter corações frios e duros porque nós nunca verdadeiramente fomos à raiz do problema. E eles não sabem o que é realmente arrependimento porque, com frequência, nós não nos arrependemos publicamente das nossas próprias falhas.

Além disso, coloque juntas numa sala um monte da mães ou que têm crianças pequenas, ou que terão um filho em breve, e você rapidamente encontrará tantas opiniões (talvez mais?) sobre a criação correta de filhos quanto o número de mães na sala.

E) Legalismo Adiáfora

Esta é a área em que Deus nos concedeu liberdade em certas questões. Não há mandamento claro dado na palavra de Deus acerca de certas coisas se nós podemos praticá-las ou não. A Confissão de Fé de Westminster tem uma seção excelente a respeito disto no capítulo 20:1-3 (ver também 1 Co 8-11.1; Rm 14).

Pessoas podem ir ao céu (isto é, não é condenatória à alma) enquanto inventam uma regra onde Deus não criou. Há coisas indiferentes (adiáfora), mas até mesmo nestas questões indiferentes nós ainda estamos atados ao princípio encontrado em 1 Co 10.31 e Rm 14.23.

Assim, há cristãos que creem que é necessariamente pecado escutar músicas de rock ou de rap. Há outros que pensam que é pecado não dar educação domiciliar aos filhos. Ainda, há outros que denunciam o Natal como um feriado pagão, o qual não deve ser celebrado, de forma alguma, por cristãos. E outros pensam que é errado beber bebida alcóolica. Há até mesmo seminários cristãos que adotam essa visão, o que é um pouco estranho, porque seminários são lugares onde pessoas vão para aprender boa teologia, e não teologia ruim!

Sugerir, então, que cristãos são obrigados a dar educação domiciliar aos filhos é uma forma de legalismo. Aqueles que afirmam tais coisas não são aqueles que estão dizendo que educação domiciliar é melhor para a sua família, mas aqueles que pensam que é errado (pecado) mandar os seus filhos à uma escola pública.

F) Legalismo teologicamente mal-informado

Aqui, temos que reconhecer que podemos ter um argumento bíblico bastante sólido no que diz respeito a nossa preocupação, mas ainda podemos estar equivocados. Pegue, por exemplo, o véu (1 Co 11.2-16). Se a exigência de que mulheres cubram a cabeça não é ordenado por Paulo, então exigir que mulheres cubram a cabeça é legalismo. É ordenar o que Deus não ordenou. É claro, aqueles que defendem isso não estão dizendo que uma mulher precisa cobrir a cabeça a fim de ser salva, mas requerer das mulheres o véu, se Paulo não ordenou a prática, pode ser legalismo.

O mesmo pode ser afirmado a respeito do Sábado. Eu considero o Dia do Senhor como um dia de Descanso (Shabbath), mas se a palavra do Senhor de fato não ensina a continuação do princípio do Dia de Descanso, então eu estou, nesta área específica, sendo legalista. Não me condenará ao inferno, é claro, mas eu ordenei pessoas na minha igreja a fazer ou a não fazer coisas sem o comando da palavra de Deus.

Todos nós erramos na nossa teologia e acreditamos que Deus ordena algo quando talvez ele não tenha ordenado, mas temos uma visão errônea do que as Escrituras ensinam e requerem.

G) Legalismo de orgulho eclesiástico

A mentalidade de “Nós somos a única igreja verdadeira”. Eu sei de muitas igrejas onde sua eclesiologia efetivamente excomunga a vasta maioria dos crentes. Eles creem que há somente um punhado de igrejas verdadeiras e fiéis – e, surpreendentemente, eles são uma destas. Pode ser um fato denominacional também. Se você não se casa com alguém da nossa denominação, você, basicamente, peca.

Ou, nossas igrejas são grandes e estão continuamente crescendo, então estamos portanto fazendo a coisa certa e quem é você para nos questionar sobre nossos métodos e eclesiologia. Ou, nossas igrejas são pequenas e diminuindo, então nós estamos portanto, sendo fiéis quando ninguém mais está.

H) Legalismo de autoridade autonomeada

Isto é bem sutil, e às vezes as intenções são claramente inofensivas. Aqui, uma pessoa diz algo como: “Tweet isso” ou “Você precisa ler isso”. Na realidade, alguém está me dizendo para fazer algo que Deus não me ordenou fazer.

Este legalismo de autoridade autonomeada flui de uma atitude de “Eu sou alguém a quem você deve dar ouvidos”. E se você não ler este artigo/livro você ficou de fora daquilo que eu acho que é algo que você precisa, ou pior, você me ignorou.

Eu não gosto de me sentir culpado por não ler as coisas que você acha que são importantes.

I) Legalismo dedo-duro

Estas crianças são do tipo de lei “ao pé da letra”, como em a LETRA da lei. Elas estão sempre mantendo outras crianças sob regras que poucas crianças na terra podem suportar. Elas amam dedurar as outras crianças, e possuem um espírito desprovido de graça. O problema é possivelmente um problema de criação.

Conclusão

Há muitas outras categorias e tipos de tendências legalistas entre os cristãos. A maior parte da desunião na igreja flui de ideias legalistas.

Fora o que eu disse acima, nós temos o legalismo do grupo de jovens, legalismo de Facebook (compartilhe isso se você ama Jesus), legalismo politico (cristãos votam nesse partido político), legalismo de retiro de mulheres, legalismo cultural, legalismo de conferência, legalismo de festa de aniversário, etc.

Se o antinomianismo é difícil de identificar, definir, e diagnosticar – e eu tenho tentado argumentar que há formas sutis de antinomianismo, em oposição à forma grosseira de antinomianismo “contra a lei de Deus” – eu creio que legalismo pode ser ainda mais complicado. Eu possuo ambas as tendências antinomiana e legalista. O único problema é: Identificar minhas tendências legalistas é bem mais difícil do que identificar minhas tendências antinomianas. Por quê? Porque nós amamos embrulhar nossos legalismos num manto de justiça própria.

E, sim, guardar a lei de Deus não é legalismo. E jamais devemos chamar obediência pela fé, pelo poder do Espírito, de legalismo. Mas ao mesmo tempo, não devemos estar inconscientes de que a observância da lei mais fácil no mundo são as leis que nós fabricamos ao invés do que Deus requer de nós na sua Palavra.

Lembre-se também de que Cristo morreu pelos nossos legalismos.

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Traduzido por Nayara Andrejczyk | Reforma21.org | Original aqui

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