Não pregamos a nós mesmos

por Mike Riccardi

Há duas semanas, olhamos para 2 Coríntios 4:3 e consideramos o que essa passagem tinha a nos ensinar com relação à natureza do ministério do Evangelho. A conclusão desse post foi que o propósito do ministério do evangelho não era divertir os bodes, mas  chamar as ovelhas. Semana passada, exploramos o verso 4 e descobrimos o problema do mundo: sua cegueira para a glória de Cristo. Portanto, a missão da Igreja é solucionar esse problema. Se estamos fazendo algo que não vai solucionar esse problema, precisamos parar.

A pergunta, então, é o que resolve esse problema? Como a Igreja pode ser instrumento para abrir os olhos cegos? Bem, Paulo fala disso no verso 5. Assim como devemos saber o propósito e o problema do ministério do Evangelho, devemos conhecer também a proclamação.

Mas não pregamos a nós mesmos, mas a Jesus Cristo, o Senhor, e a nós como escravos de vocês, por causa de Jesus. (2 Coríntios 4.5)

O que quer dizer “não pregamos a nós mesmos”? Significa que não colocamos nós mesmos – os mensageiros – à frente, como apelo para os não crentes, em nossos ministérios. Não fazemos da nossa metodologia ou do nosso estilo a mensagem principal. Não apelamos para aquilo que é carnal ou mundano no não crente visando atrair e compelir sua participação. Ao contrário, fazemos tudo que podemos para sair do caminho, para ser apenas incidental – apenas o dedo que aponta para a substância, para o conteúdo da mensagem: que Jesus Cristo é Senhor.

1 Coríntios 2.1-5 realmente lança luz no que significa para Paulo que ele não prega ele mesmo. Ele diz:

Eu mesmo, irmãos, quando estive entre vocês, não fui com discurso eloqüente, nem com muita sabedoria para lhes proclamar o mistério de Deus. Pois decidi nada saber entre vocês, a não ser Jesus Cristo, e este, crucificado. E foi com fraqueza, temor e com muito tremor que estive entre vocês. Minha mensagem e minha pregação não consistiram de palavras persuasivas de sabedoria, mas consistiram de demonstração do poder do Espírito, para que a fé que vocês têm não se baseasse na sabedoria humana, mas no poder de Deus.

O que é absolutamente maravilhoso nisso é que a superioridade do discurso, sabedoria humana e palavras persuasivas eram exatamente o que você precisava se quisesse que a sua mensagem fosse ouvida na Corinto do século I. Lembre-se: eloquência e oratória eram os pré-requisitos para o engajamento cultural e credibilidade naquela sociedade. E Paulo diz: Eu decidi – eu resolvi – ser exatamente o oposto. Eles estavam buscando sabedoria, e tudo que eu sabia era Cristo, e Cristo crucificado. Eles estavam procurando habilidades de retórica e eloquência, e eu estava com vocês na fraqueza, no temor e com grande tremor. Eles queriam alguém habilidoso na arte da persuasão, e minha mensagem e pregação não tinha palavras persuasivas de sabedoria.

Por quê, Paulo?!

“Porque se eu fizesse isso, eu estaria pregando a mim mesmo! E então sua fé estaria baseada na sabedoria dos homens, e não no poder de Deus!”

Assim, como ministros do mesmo Evangelho, nós não pregamos a nós mesmos. De fato, Paulo mesmo diz em 1 Coríntios 3.5-7: Afinal de contas, quem é Apolo? Quem é Paulo? Apenas servos por meio dos quais vocês vieram a crer, conforme o ministério que o Senhor atribuiu a cada um. Eu plantei, Apolo regou, mas Deus é quem fez crescer; de modo que nem o que planta nem o que rega são alguma coisa, mas unicamente Deus, que efetua o crescimento. E de novo em 2 Coríntios 4.7, Paulo diz: Olha, nós somos apenas vasos de barro. Não fazemos nada por nós mesmos, porque queremos “mostrar que este poder que a tudo excede provém de Deus, e não de nós”.

Ministério Cristão não é para tentar ganhar seguidores, preencher lugares e se tornar famoso. O problema que estamos tentando resolver por nossa pregação é a cegueira do mundo para a glória de Cristo. Assim, não pregamos sobre nós, porque não importa quão descolada ou inteligente é nossa apresentação, isso não é o que salva as pessoas. Não é isso que abre os olhos delas para ver a luz do evangelho da glória de Cristo.

Uma epidemia

E se há uma coisa que atormenta o evangelicalismo contemporâneo hoje é uma epidemia de pregar sobre nós mesmos. Uma das maiores marcas da insalubridade da Igreja é que, mais do que manifestar a glória de Jesus e a ofensividade e a loucura da cruz, os exegetas da cultura de hoje tentam mostrar ao mundo o quão parecidos somos com ele.  Sendo assim, cristãos professos  apresentam a si mesmos para o mundo, e, propositalmente ou não, implicitamente pedem aos não crentes para recebê-los muito antes de chamá-los para receber Cristo.

Não crentes não gostam de sermões que duram uma hora e que contém grandes palavras da Bíblia, então os seeker-sensitive que buscam a agradar a todos e os estrategistas de crescimento de igreja dizem que devemos reduzir os sermões a 20minutos de conversas estimulantes para consertar os problemas emocionais e os relacionamentos pessoais de vocês. Por outro lado, o remanescente da igreja emergente dentro do evangelicalismo conservador nos lembra que estamos vivendo em uma era pós-Cristã e antes que aqueles entre 18 e 30 anos fechem suas portas para receber a igreja, precisamos fazer todo tipo de coisa em nome da “contextualização” e de sermos “missionais”. Se o seu “público alvo” gosta de cafés exóticos, bote uma cafeteria na sua igreja. Se eles gostam de música punk-rock e de piercings, compre alguns CDs e cogite perfurar sua língua. Se eles gostam de luta livre, vá com eles a um bar após o trabalho e veja com eles uma luta enquanto tomam uma cerveja importada. Veja bem, uma vez que mostremos a eles que os cristãos são como eles – que somos humanos como eles e podemos gostar das mesmas coisas que eles gostam – bem, aí sim talvez eles estejam interessados em “experimentar um pouco de Jesus”.

Parece que pouca atenção é dada a Tiago 4.4: “Adúlteros, vocês não sabem que a amizade com o mundo é inimizade com Deus? Quem quer ser amigo do mundo faz-se inimigo de Deus.”

É por isso que nós…

Aqui está um exemplo real da página “Quem somos” do site de uma igreja: “Se você está procurando por um lugar para se divertir, fazer amigos e explorar e experimentar um relacionamento com o Deus verdadeiro, [essa igreja] é o seu lugar! Nós acreditamos que a igreja deve ser a experiência mais excitante e significativa da semana de uma pessoa! É por isso que nós…”

Veja, eu concordo que a igreja deve ser a experiência mais excitante e significativa da semana de uma pessoa. Mas como você completa a última sentença fala muito alto sobre o que você crê sobre Jesus Cristo e o evangelho. Bem ali eu quero completar: “É por isso que nós expomos fielmente as Escrituras semana a semana, visando apresentar uma visão exaltada de Deus, para que nossos membros possam ver e experimentar a glória revelada em Cristo e, como resultado disso, possam ser tão satisfeitos pela bondade de Cristo que possam voluntariamente entregarem suas vidas durante a semana para amarem seus próximos como a eles mesmos”.

Mas não. Eles acreditam que a igreja deve ser a experiência mais excitante e significativa da semana de uma pessoa. “É por isso que nós usamos luzes teatrais, som e vídeo. É por isso que temos músicas modernas e atuais, acompanhadas por mensagens criativas e relevantes que falam sobre os desafios da vida real. É por isso que nós pensamos e criamos um modelo em tamanho real de uma cidade para as crianças, completa, até com um caminhão de bombeiros de verdade! E muito mais!” E por aí vai.

Você consegue ver como isso é pregar a si mesmo? Eles oferecem a igreja deles, e suas várias programações e apresentações multimídia como a oferta mais importante. Paulo chama esse tipo de coisa de negociar a palavra de Deus em 2 Coríntios 2.17. Um negociante sabe que o produto que ele está tentando vender não é tão bom, então ele faz de tudo para tentar disfarçar e aumentar seu valor. Que Deus nos impeça de dar tão pouco valor à glória de Cristo a ponto de enrolarmos os não crentes sobre Seu valor, tentando empurrar a eles algo além dEle mesmo. “Luzes” e “música atual” nunca abrirão olhos cegos. Apenas o evangelho de Cristo crucificado, ressurreto e reinando soberano pode resolver o problema que a igreja é chamada para resolver:

  • Romanos 10.17 – A fé vem pelo ouvir, e ouvir a palavra de Cristo
  • 1 Pedro 1.23-25 – As pessoas nascem de novo por meio da viva e eterna palavra de Deus
  • Tiago 1.18 – Por Sua decisão, Deus nos gerou (isso é, nos regenerou) pela palavra da verdade.

Assim Paulo declara que nós cristãos não pregamos nós mesmos, porque isso nunca irá resolver problema do mundo. Pelo contrário, nós pregamos – esse é o nosso método – Cristo Jesus como Senhor – essa é nossa mensagem. Isso é o ministério do evangelho, amigos. Que não nos confundamos em nossa tarefa.

Tags: , ,

Traduzido por Filipe Schulz | Reforma21.org | Original aqui

Você está autorizado e incentivado a reproduzir e distribuir este material em qualquer formato, desde que informe o autor e o tradutor, não altere o conteúdo original e não o utilize para fins comerciais.