O Salmo 146 e quem realmente manda na praça dos 3 poderes

por Emilio Garofalo Neto

Não coloque sua confiança em meros humanos, é a lição central do glorioso Salmo 146.

É curioso ver como o povo brasileiro nos últimos tempos tem se interessado por política. Desde a última eleição presidencial em 2014, o povo tem transformado os debates, as ideias e as movimentações políticas em seus temas favoritos. Talvez tenha a ver com a vergonha do 7×1 contra a Alemanha, e constatação de que a grandeza esportiva tem nos escapado. Seja como for, a política parece estar na cabeça do povo brasileiro de uma maneira inédita! Pessoas compartilham notícias de blogs políticos, escrevem suas opiniões, e onde só publicavam vídeos de gatos fofos ou tombos de moto, agora publicam vídeos com trechos de discursos de parlamentares! Quando que isso ocorreria alguns anos atrás? De vez em quando, a gente se pega até mesmo assistindo TV Senado… As pessoas falam sobre rito de impeachment, sobre STF, sobre suplentes; sabem mais sobre os partidos que os times de futebol, postam longos textos indignados acerca do fim ou não de ministérios, arriscam palpites sobre as inclinações econômicas ou sociais de cada legenda, e são capazes de escalar a lista de ministros do Supremo de cabeça.

Junto com isso, há um misto de euforia pelas mudanças com indignação, decepção e tantas outras confusões. Pode ser que nos vejamos em uma agonia que denuncie que, no final das contas, pensamos que nosso futuro está nas mãos dos meros humanos poderosos. Corremos o risco de cair numa espécie de fatalismo acerca dos poderosos e acharmos que, em última instância, são eles quem determinarão os rumos e a vida do país, da cidade e de nossas famílias. O Salmo 146 corrige nosso coração. Leia com amor:

1 Aleluia! Louva, ó minha alma, ao SENHOR.
2 Louvarei ao SENHOR durante a minha vida; cantarei louvores ao meu Deus, enquanto eu viver.
3 Não confieis em príncipes, nem nos filhos dos homens, em quem não há salvação.
4 Sai-lhes o espírito, e eles tornam ao pó; nesse mesmo dia, perecem todos os seus desígnios.
5 Bem-aventurado aquele que tem o Deus de Jacó por seu auxílio, cuja esperança está no SENHOR, seu Deus,
6 que fez os céus e a terra, o mar e tudo o que neles há e mantém para sempre a sua fidelidade.
7 Que faz justiça aos oprimidos e dá pão aos que têm fome. O SENHOR liberta os encarcerados.
8 O SENHOR abre os olhos aos cegos, o SENHOR levanta os abatidos, o SENHOR ama os justos.
9 O SENHOR guarda o peregrino, ampara o órfão e a viúva, porém transtorna o caminho dos ímpios.
10 O SENHOR reina para sempre; o teu Deus, ó Sião, reina de geração em geração. Aleluia!

Os príncipes deste mundo

É muito comum pensar que os homens poderosos são quem podem fazer nossa vida ser um mar de rosas ou um mar de lama. Achamos que, no final das contas, eles é quem mandam. Na história de Israel, por certo eles experimentaram o que era a vida nas mãos de reis ímpios e perversos. Mesmo os bons governantes tinham suas terríveis manchas, como fica claro nas vidas de Davi e Salomão. Mas Deus nunca esteve preso aos mandos e desmandos dos reis. Ele inclina o coração do rei, e usou tanto homens segundo o seu coração, como homens de coração de pedra, para atingir seus propósitos. Seja Davi, seja Nabucodonosor, todos têm de se ater aos planos divinos. O verso 3 do Salmo nos lembra disso. Temos a tendência de colocar a confiança em príncipes, em governantes poderosos. Mas o salmista lembra bem: neles não há salvação.

É muito fácil o povo de Deus pensar que seu destino depende de um governante. É claro que sabemos que governantes perversos causam enorme mal, como fica claro ao investigarmos a história dos ditadores socialistas, por exemplo. É certo também que Deus não nos chama a sermos alienados a respeito do que se passa em nossa nação, mas a sermos bons cidadãos, sal da terra e luz do mundo. Porém, não devemos achar que nossas vidas estão, em última instância, na mão dos poderosos. Facilmente somos capazes de colocar nossa esperança no grande líder e morremos de medo de que a pessoa errada ganhe o pleito. Eu morava nos Estados Unidos em 2008, ocasião da primeira eleição de Barack Obama, e lembro da cena ridícula de ver cristãos completamente apavorados. Até professor de seminário imaginando se seria o início da grande tribulação. Crianças chorando com medo do Obama ir pegá-los em casa. Uma cultura do medo que pensa que homens poderosos é que mandam.

Talvez nós, brasileiros, com nosso longo histórico de presidentes ruins, sejamos mais vacinados contra essa ideia. Mas, por outro lado, colocamos nossa esperança no poderoso médico, no magnânimo gerente do banco, no infalível pastor. E amamos o estado, o grande protetor que funciona, na prática, como um ídolo que promete dar apenas o que Deus pode dar. A idolatria do estado envolve justamente a humanidade tentar colocar sobre os ombros estatais o peso de cuidar da segurança, da alimentação, da educação e até da felicidade de cada um. A ideia é que os poderosos cuidarão de nós, e tudo o que temos de fazer é pagar o tributo dos votos (além do tributo dos tributos, é claro).

Mas o Salmo nos lembra: não ponha sua confiança neles. O verso 4 nos dá uma ótima razão para isso: logo eles morrem e seus grandes projetos, os bons e os perversos, morrem junto. Por vezes, tendemos a ver estas pessoas como quase sobre-humanos. Parecem maiores que a vida. Eles têm inúmeras pessoas sob sua influência; têm direitos e regalias que nem imaginamos, aparecem nos jornais, tem foro privilegiado… Mas quando chega a morte, são da mesma consistência e fragilidade que todos nós. Pensamos que são tão especiais, mas não passam de poeira. Nenhum deles vive 600 anos, caminha em Marte, conhece os mistérios… Nenhum deles pode levar-nos a desfrutar o paraíso; nenhum deles pode perecer e pagar nossa dívida eterna. Neles, não há salvação. E a grande maioria deles nem será lembrada em meras duas gerações.

O rei soberano

Já o Senhor é quem vai cuidar de nós, por meios diversos. Veja quantas coisas o Senhor faz, segundo o Salmo, a partir do verso 7. Ele faz justiça aos oprimidos! Muitas vezes, os poderosos oprimem o povo ao mesmo tempo em que se dizem defensores dele. Utilizam as coisas de seu país para seu próprio bem. Deus condena este tipo de coisa, e promete que ele mesmo vai transtornar o caminho do ímpio. Confie na justiça divina. Pode parecer que os bandidos escaparão, que acabará tudo em pizza, ou no máximo em prisão domiciliar. Mas não eternamente. O grande Charles Spurgeon, comentando esse Salmo, disse: “Com segurança podemos confiar nossa causa a tal Juiz… Fomos tratados perversamente? Nossos direitos nos foram negados? Fomos difamados? Deixe que isto te console: aquele que ocupa o trono não somente considera o nosso caso, mas se levanta para executar julgamento.”

Nosso Deus cuida dos estrangeiros, dos órfãos e das viúvas. Em todo o Antigo Testamento temos leis para proteção desses grupos. E não foi isso que Jesus fez por tantos? Ele se misturava com necessitados de todo tipo. Ele se ocupava com estrangeiros que ninguém queria dar atenção. E ele fazia essas coisas não como um fim em si mesmas, mas como prévias da recriação de todas as coisas, enquanto marchava inexoravelmente rumo à sua cruz para fazer a provisão definitiva para o nosso bem.

Mas vivemos preocupados com as coisinhas pequenas. E parece que ninguém cuida delas! Kevin DeYoung disse muito bem: “Para a maioria de nós, não são as heresias ou as apostasias que vão descarrilhar nossa fé. São as preocupações da vida. Você tem consertos para fazer no carro. O aquecimento da água quebrou. As crianças têm de ir ao médico. Você não terminou a declaração do Imposto de Renda. Você tem que organizar sua conta bancária. Você está atrasado na sua correspondência. Você prometeu para sua mãe passar lá e consertar a pia. Há o planejamento do casamento. Suas provas finais estão chegando. Você tem que fazer entrevistas de emprego. Sua geladeira está vazia. Suas cortinas estão tortas. A máquina de lavar está tremendo toda. Esta é a vida para muitos de nós, e isto pode sufocar nossa vida spiritual.”

Mas o Salmo 146 nos lembra: Deus é quem controla nossa vida. E o caminho para acalmar o coração é focarmos na majestade divina. É o Aleluia. Louve ao Senhor. É dizermos para nossas próprias almas que devemos adorá-lo e celebrar quem ele é em seu cuidado perfeito por nós. O Salmo está te ensinando que, ao invés de se preocupar, você deve adorar. Quando bater a insegurança com o futuro da nação ou da família, adore a Deus pela sua fidelidade. Quando bater o medo do desemprego, da inflação ou do que for, adore a Deus pela sua proteção. Quando bater a solidão, adore a Deus por sua onipresença e imensidão. Quando bater a ira pela injustiça, adore a Deus, o justo juiz, que tudo vê e que transtornará o caminho dos ímpios.

Louve a Deus por Jesus Cristo, a maior das provisões. Seus projetos não cessaram quando ele morreu. Pelo contrário, ali ele triunfou e fez de todo o que nele crê parte de um novo mundo que aos poucos está invadindo esta triste realidade.

De geração em geração

A igreja já passou por inúmeras gerações. Uma geração de crentes está lidando com a corrupção governamental, com seus petrolões e mensalões, e a crise econômica e política que advém disso no Brasil. Gerações hoje enfrentam ditadores e perseguição religiosa em diversos países do mundo. Gerações lidaram com poderosos criando duas guerras mundiais. Gerações encontraram a morte em campos de extermínio chineses e soviéticos. Gerações enfrentaram guerras, reis malucos, perseguição estatal, fomes, imperadores sanguinários, e inúmeras outras formas de sofrimento. Mas Deus nunca esteve longe. Como o Salmo diz, de geração em geração ele tem reinado sobre seu povo e seu mundo. Não precisamos ter medo. Devemos adorar agradecidos.

Aleluia.

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