A Família Sol-Lá e só?

por Gabriel Fluhrer

Gabriel Fluhrer
Gabriel Fluhrer

Imagine a Família Sol-Lá-Si-Dó [The Brady Bunch], o hit da TV nos anos 70, sendo regravada para os telespectadores atuais. Será que a maioria dos casais mais jovens iria se identificar com o enredo?

Não segundo um recente artigo do Weekly Standard¹. O autor do artigo, Jonathan Last, está para lançar seu novo livro, What to Expect When No One’s Expecting: America’s Coming Demographic Disaster [O que esperar quando ninguém está esperando: a vinda do desastre demográfico da América], em 2013. Last dá uma série de razões pelas quais há um aumento do número de casais sem filhos. Alguns diriam: “É a economia, estúpido!”. Justo, diz Last. Mas essa não é a razão principal pela qual os casais não estão tendo filhos. Como é típico desse tipo de tendência, os fatores são multifacetados, complexos e resistentes à fácil categorização. Mesmo assim, Last defende que a razão é a cultura do divórcio, contracepção, aborto e a mudança nas práticas religiosas – todos eventos que marcaram os anos 70 – que está levando ao declínio casais americanos ter filhos.

Sem dúvidas, o livro de Last provará ser uma leitura interessante e provocativa. No que estou interessado, entretanto, é no aumento inquietante do número de jovens casais cristãos evangélicos que conheço que estão casados há anos e têm apenas um cachorro fofinho para mostrar. Não tenho nenhuma das pesquisas acumuladas por Last para embasar minhas suspeitas, apenas as observações do meu próprio ministério pastoral. A minha análise não é empírica e rigorosa, mas eu acho que há alguma verdade nela.

Quando perguntei a jovens casais cristãos sobre filhos e sobre quando eles esperavam tê-los, os suspeitos de sempre se revelaram em suas respostas. “Queremos chegar primeiramente a uma posição financeira na qual possamos sustentar um filho” ou “Queremos viajar um pouquinho antes de termos filhos”, ou – minha favorita – “Queremos aproveitar um pouco nosso casamento antes de termos filhos”. Ora, essas duas primeiras razões são até louváveis, em determinado sentido: é bom exercitar a prudência fiscal e não há nada errado em viajar. No entanto, essas duas respostas, assim como a terceira, são reflexo de uma compreensão errada da visão fundamental da Bíblia sobre filhos. Todas elas parecem assumir que filhos são um fardo a ser suportado, ao invés de uma bênção para ser aproveitada.

De fato, a procura por qualquer passagem bíblica que trate os filhos como outra coisa a não ser bênção será em vão. Não empecilhos financeiros. Não um obstáculo para uma viagem por toda a Europa. E, certamente, não um estraga-prazeres no casamento. Salmo 127.3 resume bem a posição bíblica: “Herança do SENHOR são os filhos; o fruto do ventre, seu galardão”. De Gênesis até Apocalipse, filhos são vistos tanto como um sinal do favor do Senhor quanto fonte de grande alegria e bênção.

De forma mais espetacular, nosso Senhor mesmo se tornou um bebê. Certamente, se alguém pudesse reclamar de “não aproveitar o casamento” ou “ser financeiramente despreparado”, esse alguém seria Maria e José. Mesmo os dados bíblicos sobre isso sendo poucos, parece que os pais terrenos de nosso Senhor eram pobres. Mas não há nenhum indício de que eles estavam se esquivando do nascimento de um filho inesperado pelas razões típicas da maioria dos casais atuais.  A causa principal de consternação parece ter sido a natureza sobrenatural de sua gravidez, não a gravidez em si.

Parece que outras pessoas sentiram a mesma coisa. Isabel, a mãe de João Batista, usando a mesma linguagem do Salmo 127.3, exclamou: “Bendita é tu entre as mulheres, e bendito o fruto do teu ventre!” (Lc 1.42). Consoante com a plenitude da revelação bíblica, a família do nosso Senhor e Seus amigos viam os filhos como bênção.

É essa a atitude da igreja evangélica atualmente? Deveria ser. Mas é, certamente, inquietante quando casais cristãos se recusam a ter filhos. Realmente, não há boas razões nas Escrituras para evitar ter filhos. Se você está providencialmente impedido de ter filhos, talvez Deus esteja te chamando a adotar filhos. De qualquer forma, nós, como cristãos, devemos nos deleitar em ver crianças em nossas congregações, nossas casas, e nosso círculo de amigos. Parece-me que uma quantidade de casais cristãos está perdendo essa bênção por razões bastante pobres e antibíblicas.

A força motriz – novamente, na minha experiência limitada – que leva os casais a procrastinarem ou a renunciarem ter filhos geralmente surge de um desejo de liberdade. Filhos requerem muito cuidado. Eles nunca irão se encaixar na sua agenda e sua vida mudará dramaticamente quando você tiver um (ou mais). Não, um cachorro não é uma boa preparação para um filho. Cachorros não colorem as paredes, não falam, e não requerem várias noites sem dormir para alimentá-los. E depois a verdadeira diversão começa, quando as crianças estão se tornando adolescentes. Em contrapartida, quando os cachorros ficam mais velhos, eles apenas ficam deitados pela casa.

Do começo ao fim, ter outro portador da imagem de Deus dependendo de você não é uma tarefa fácil. Mas também não é uma tarefa triste. Essa é uma tarefa abençoada para a qual Deus chama Seus filhos (!), uma tarefa que está lá desde os primeiros capítulos de Gênesis. Como qualquer outra obra humana, ela é manchada pelo pecado, mas o trabalho prazeroso de ter filhos não deve ser evitado, e sim encorajado na igreja de Jesus Cristo.

Talvez, se “A Família Sol-Lá-Si-Dó” fosse regravada para o público atual, Mike e Carol Brady nunca teriam o problema de unir o grupo dos irmãos; e nem teriam filhos antes de seu novo casamento.² Pelo contrário, seria “Mike e Carol Show”, uma comédia sobre um casal urbano, em que os dois têm ótimos empregos, amam correr juntos, saem para jantares românticos, e passam fins de semanas em Catskills³ ou na costa marítima. Crianças? Dificilmente. Tal fardo iria imediatamente perder audiência.

O assustador é a possibilidade de cristãos serem os espectadores da série e não encontrarem nada para protestar contra.

¹ Blog de notícias

² No seriado, a “família Só-Lá-Si-Dó” surge da união de um viúvo com três filhos e de uma divorciada com três filhas.

³ Vasta área de montanhas no estado de NY.

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Traduzido por Fernanda Vilela | Reforma21.org | Original aqui

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