Não separemos Cristo em partes

por Michael Horton

Michael Horton
Michael Horton

Cristãos podem abraçar um estilo de vida homoafetivo e ainda assim serem membros de uma igreja cristã?

Foi-me solicitado comentar sobre a controvérsia provocada por uma entrevista recente da revista The Atlantic a Alan Chambers, presidente da Exodus International – um ministério evangélico criado para ajudar cristãos e não-cristãos a encontrar liberdade da culpa e do poder de um estilo de vida homoafetivo.

Cristãos podem debater políticas públicas, mas nessa entrevista, Chambers levanta questões que são claramente abordadas na Escritura. Especialmente quando estamos tratando de vidas humanas, buscando obter sabedoria de Deus, precisamos afirmar a simplicidade do ensinamento bíblico sobre dado assunto enquanto rejeitamos uma abordagem simplista das questões envolvidas.

O problema (pecado e morte) e a solução (redenção em Cristo através do evangelho) são simples, mas dificilmente simplistas. Em termos de pecado, a Escritura é bastante clara sobre a condição (pecado original – culpa, escravidão, corrupção que leva à morte) e os atos que surgem daí. Há versões das agendas pro-gay e anti-gay que assumem um entendimento simplista, não simples, da questão – pelo menos, de uma perspectiva bíblica. Rejeite ou abrace: essa é uma escolha simples que causa muitas discussões, mas que pode arruinar vidas.

Vamos aplicar essa fórmula “simples, mas não simplista” ao homossexualismo.

Simples…

Primeiramente, o ensinamento da Bíblia sobre o assunto é simples no sentido de ser direto e sem ambiguidade. A Escritura proíbe o comportamento homossexual? Claro que sim. Jesus e seus apóstolos ensinaram que a intenção de Deus no casamento é que um homem deixe seus pais e se junte a uma mulher (Mateus 5.27-32; 19.3-6). Além disso, o Novo Testamento claramente ensina que o homossexualismo é imoral (Romanos 1.26-27; 1 Coríntios 6.9-10; 1 Timóteo 1.10) e que aqueles que abraçam um estilo de vida sexualmente imoral não herdará o reino de Cristo (Gálatas 5.19-21; 6.7-9; Efésios 5.5; 1 Tessalonicenses 4.2-8). Será que não é mais complicado que isso? Afinal de contas, Paulo não poderia estar falando de relacionamentos baseados em prostituição ritualística ou talvez escravidão, ao invés de relacionamento propositais? Não, o substantivo arsenokoitēs significa “aqueles que praticam homossexualismo”. É um vocábulo incomum, mas é exatamente o que Paulo está falando. E não é como as proibições contra comer frutos do mar ou costela de porco: parte da lei pactual antiga que distinguia Israel visivelmente das outras nações como uma nação teocrática, que tipificava Cristo e agora está obsoleta já que a realidade (o próprio Cristo) já chegou.

E sobre a lei, a Escritura também é maravilhosamente simples ao proclamar o evangelho: Cristo conquistou para nós a vitória sobre a culpa, o domínio e, em ultima instância, a presença, do pecado, coisas que éramos incapazes de derrotar.

… Mas não simplista

Entretanto, nesse ponto a complexidade tanto do pecado quanto da redenção vem à tona. Se o pecado fosse apenas um comportamento, seríamos capazes de interrompê-lo. Se fosse um hábito muito antigo, talvez precisássemos de alguma ajuda para parar, mas eventualmente, se nos esforçássemos bastante, seríamos capazes. Entretanto, o pecado não é apenas um comportamento. Muito antes de fazer qualquer escolha sobre o que fazer com isso, as pessoas já tinham a predisposição à atração homossexual. Ao afirmarmos o pecado original, os cristãos não têm problema em aceitar isso. Nós rejeitamos a redução pelagiana do pecado a uma ação que pode ser combatida com força de vontade. Somos depravados (deturpados) em todos os aspectos: espiritualmente, moralmente, intelectualmente, volitivamente e fisicamente. Muito antes de a genética ser um campo desenvolvido os cristãos já falavam do pecado como uma condição hereditária. Além disso, podemos herdar pecados específicos – ou, pelo menos, tendências – de nossos pais e mães. Então adicione a isso as formas pelas quais as pessoas foram alvo de pecados por conta de atitudes e comportamentos de outras pessoas, especialmente na infância. Então mesmo antes de realmente decidirmos tomar o primeiro gole, fazer a primeira aposta, dar o primeiro soco ou enganar nosso melhor amigo, já estamos cercados pela teia do pecado. Ao mesmo tempo, nós somos responsáveis pelas nossas escolhas, o que pode reforçar ou contra-atacar pecados específicos para os quais somos especialmente inclinados.

Não há razão para pensar que cristãos que lutam contra essas disposições são menos justificados ou renovados pela graça de Deus em Cristo do que aqueles que lutam em particular contra a ganância, a raiva ou a fofoca. O evangelho nos liberta para confessarmos nossos pecados sem temer a condenação. Ao olharmos somente para Cristo para nossa justificação e santificação, podemos finalmente declarar guerra contra nosso pecado, porque temos paz com Deus.

Se não há base bíblica para uma condenação maior, também não há base bíblica para um relaxamento maior no julgamento de Deus desse pecado. É tão odioso ocultar qualquer esperança para aqueles que abraçam um estilo de vida homossexual quanto é assegurar a idólatras, assassinos e ladrões que estão seguros e salvos de qualquer perigo. Também não ajuda dizer “bem, todos nós somos idólatras, etc” já que em 1 Coríntios 6 a preocupação de Paulo não é atacar a autojustificação legalista, mas alertar cristãos professos que eles não podem adorar Diana na Terça-Feira e Jesus no Domingo. O argumento de Paulo é claro: para os gentios, a imoralidade sexual (incluindo o homossexualismo, dentro de certos limites sociais) é normal, mas viver sob essa ótica é se excluir do reino de Cristo. Um pecador orgulhoso corajosamente ignorando o senhorio de Cristo enquanto professa abraçá-lo como Salvador é exatamente o que Paulo está dizendo ser impossível. Essas passagens não são ameaças para crentes que lutam contra seu pecado e caem neles (veja mais sobre isso em Romanos 7); ao invés disso, elas ameaçam crentes professos que não concordam com Deus sobre seus pecados.

Quase perdendo as esperanças, um jovem rapaz me telefonou, por sugestão de um amigo em comum. Após um verão inteiro discutindo essas questões e construindo novas categorias, com a ajuda de uma boa igreja, ele retornou para casa. Disse a seus pais que não era “gay” nem “hétero”. Seguro na obra suficiente de Cristo, ele era um cristão sofrendo e lutando com a atração homossexual, mas que rejeitava o estilo de vida homossexual. Isso não era uma categoria para eles. Após seu pastor lhe informar de que ele era um desses gentios de quem Paulo fala como que “abandonados” por Deus aos seus desejos depravados, esse amigo e irmão cometeu suicídio. Uma visão superficial do pecado pode ser fatal, especialmente quando a arma letal foi o uso errado da Escritura.

Porém, para cada condenação simplista, há 20 aprovações simplistas. Dado que apenas a algumas décadas os psicólogos e psiquiatras estavam torturando pacientes homossexuais em nome da ciência, pode ter sido, em termos, salutar, quando a Associação Psicológica Americana fez alertas ferozes contra aqueles que tratavam o homossexualismo como uma “desordem”. Entretanto, a psicologia ultrapassa os limites de sua competência quando imagina que tirar um comportamento da lista de desordens psicológicas significa que ele não possa ser considerado uma desordem (ou pecado) em um sentido moral e espiritual.

Um problema da ótica simplista do pecado é que sempre geram óticas simplistas da redenção. A Escritura fala da salvação em termos de uma tensão entre o “já” da salvação e o “ainda não” que nos espera. Indispostos a abraçar o paradoxo de sermos “simultaneamente justificados e pecadores”, nós rejeitamos ou a justificação ou a santificação. Entretanto, uma visão simplista do pecado apenas como ações trata como solução para isso nada além de terapias ocupacionais. “Apenas pare de fazer”, diz a posição anti-gay. “Apenas abrace”, diz a posição simplista pró-gay. Há até mesmo uma versão do evangelho, atualmente, que é tão simplista quanto a alternativa legalista. De muitas formas, soa como uma fina camada de verniz cristão sobre uma mensagem terapêutica: “Deus te ama incondicionalmente” (sem qualquer menção a arrependimento, fé ou até mesmo Cristo); “não importa o que você faça, Deus não está bravo com você”, e por aí vai. Qualquer pessoa que pense que como vivemos não afeta o nosso relacionamento com Deus não levou a sério os alertas e as exortações do Novo Testamento. Autoconfiança não é o único pecado que nos distrai de olharmos somente para Cristo por meio da fé.

A conformidade à imagem de Cristo só pode ser alcançada pelo evangelho. Ainda assim, é dirigida por mandamentos e exortações específicas da palavra de Deus. Quantas vezes somos comandados a fugir das tentações, na Escritura? O pecado é atrativo principalmente porque é sempre a corrupção de algo bom, verdadeiro e belo. É possível ter uma propensão maior a comer, beber ou trabalhar incontrolavelmente do que outros. Ainda assim, é dever do cristão resistir a situações que inflamam nossas tendências caídas de perverter as boas dádivas de Deus. A luxúria é uma perversão do sexo e o homossexualismo é uma perversão daquele profundo amor que homens e mulheres têm entre si que é maravilhosamente diferente do amor de um marido e sua esposa.

Um cristão arrependido é alguém que concorda com Deus sobre a natureza do pecado e da necessidade de redenção através de Jesus Cristo. Mesmo quando tal pessoa cai, seu foco vai do pecado para o Salvador fiel, à destra do Pai.

Ao se recusar a concordar com Deus sobre a natureza de tal comportamento como pecaminoso, aqueles que abraçam a imoralidade sexual como um estilo de vida rejeitam o evangelho. Não é possível nem mesmo buscar perdão para algo que não se trata como pecaminoso, para começar. Arrependimento significa “mudança de mente”. Não significa que nunca mais haverá luta contra esse pecado; na realidade, a luta indica o arrependimento! Além disso, significa uma posição contrária ao pecado. E nós nos arrependemos em conjunto, não sozinhos.

“Um hospital para pecadores” – Mesmo?

Nós gostamos da ideia da igreja como um hospital para pecadores em geral; são as doenças específicas que nós preferiríamos não ter que tratar.

Muitas vezes em nossas igrejas há a tendência de idolatrar o casamento e a família. De uma perspectiva do Novo Testamento, a igreja como a família de Deus é muito mais superior e íntima que a nossa família natural. Entretanto, se alguém pergunta o que a nossa igreja tem a oferecer para as famílias, muitos de nós pode pensar em algo a dizer, enquanto talvez nos faltem as palavras se alguém nos perguntar o que a nossa igreja tem a oferecer para os solteiros – especialmente cristãos lutando contra a atração pelo mesmo sexo.

E ainda assim, quando se trata de carregar sua própria cruz, que testemunho da cruz de Cristo maior há que um pecador que encontra sua suficiência em Cristo a ponto de que até os prazeres sexuais são completamente entregues? Como outros cristãos solteiros, livres de muitas das responsabilidades domésticas, esses irmãos e irmãs são capazes de investir mais de suas vidas na comunhão dos santos. Isso muda o resto da congregação também, já que os outros precisam enfrentar suas próprias reações e vulnerabilidades. Crianças crescendo reconhecem a seriedade de seu próprio pecado e o chamado à santidade; também vêem em primeira mão quão verdadeiro é o evangelho na vida real, ao participarem da Ceia junto com irmãos e irmãs que foram muito perdoados e que, por isso, também amam muito. Esse testemunho da cruz de Cristo vai além da igreja local. O mundo descrente pode expressar hostilidade para com as denúncias tradicionais do homossexualismo pelas igrejas, mas é mais difícil zombar de pessoas que de fato viraram o rosto para longe de um dos ídolos mais valorizados pela cultura: um ser com ilimitadas identidades. Não, há algo mais valioso na vida e, portanto, mais valioso que o prazer sexual.

Pode soar como compaixão, mas na verdade é auto-justificação e orgulho negar a alguns pecadores o privilégio da membresia e da disciplina da igreja que o resto do corpo usufrui e que flui do cabeça, Jesus Cristo. Todos nós estamos sob a disciplina da igreja: isso é, a obrigação de responsabilidade mútua do corpo de Cristo. Isso é exercido, conforme instrução do próprio Cristo, pelos pastores e presbíteros. Mesmo no caso extremo da exclusão, quando, após longas admoestações cobertas de lágrimas, os membros não se arrependem e são excluídos da comunhão no corpo e no sangue de Cristo, o objetivo desse “duro amor” é o arrependimento e a restauração da comunhão. Cristãos que caem não estão sob esse perigo. Eles são guiados, encorajados, absolvidos e exortados junto com todos. Entretanto, membros que recusam o jugo de Cristo não são cristãos. Um dos ensinamentos mais óbvios do Novo Testamento é que, sem arrependimento, ninguém pode ser salvo.

Conclusão

Não nos atrevamos a cortar Cristo em pedaços, como se pudéssemos recebê-lo como libertador da culpa do pecado, mas não com seu domínio, ou como Salvador, mas não como Senhor. Também não podemos nos cortar em pedaços, separando nosso corpo de nossa alma – como se pudéssemos entregar nosso coração a Jesus, mas manter a posse do nosso corpo. É precisamente porque nossos corpos são importantes para a narrativa bíblica que eles não podem ser excluídos do discipulado bíblico. Como Paulo diz:

O corpo, porém, não é para a imoralidade, mas para o Senhor, e o Senhor para o corpo. Por seu poder, Deus ressuscitou o Senhor e também nos ressuscitará. Vocês não sabem que os seus corpos são membros de Cristo? Tomarei eu os membros de Cristo e os unirei a uma prostituta? De maneira nenhuma! Vocês não sabem que aquele que se une a uma prostituta é um corpo com ela? Pois, como está escrito: “Os dois serão uma só carne” […] Fujam da imoralidade sexual.  Acaso não sabem que o corpo de vocês é santuário do Espírito Santo que habita em vocês, que lhes foi dado por Deus, e que vocês não são de si mesmos? Vocês foram comprados por alto preço. Portanto, glorifiquem a Deus com o seu próprio corpo. (1 Coríntios 6.13-20)

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Traduzido por Filipe Schulz | Reforma21.org | Original aqui

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