Uma questão de prioridade

por Carl Trueman

Carl Trueman
Carl Trueman

O artigo a seguir é uma adaptação do discurso feito pelo Dr. Carl Trueman à turma de formandos do Seminário Teológico Westminster de Dallas, em 21 de Maio de 2012.

Quais devem ser as prioridades dos pregadores e mestres da palavra de Deus? Visto que hoje celebramos a formatura de uma turma de seminaristas, cuja maioria vai prosseguir no ministério pastoral, me parece apropriado gastar alguns momentos refletindo sobre as prioridades de Paulo para os ministros. Dificilmente poderíamos fazê-lo de forma apropriada, é claro, por conta do tempo que temos, então irei focar apenas um versículo da primeira carta de Paulo a Timóteo: 1 Timóteo 4.16:

Atente bem para a sua própria vida e para a doutrina, perseverando nesses deveres, pois, agindo assim, você salvará tanto a si mesmo quanto aos que o ouvem.

Aqui, Paulo instrui seu jovem aprendiz a ser sempre vigilante, tanto em sua vida cristã particular quanto na doutrina que ensinar, isso é, o evangelho de Jesus Cristo que lhe foi confiado por ser ministro. Ele deve prestar muita atenção à suas práticas e aos seus ensinamentos. Isso é muito enfatizado. Timóteo não deve olhar casualmente para essas coisas ou pensar nelas de vez em quando; ele deve submetê-las a um escrutínio cuidadoso, crítico e constante. E a razão de Paulo para enfatizar isso é que tal vigilância renderá dividendos não só para Timóteo, mas também para aqueles que ele ensina na igreja de Éfeso. Timóteo é um professor, um ministro: como ele se comporta e o que ele ensina irá impactar aqueles sob seu cuidado pastoral. Em outras palavras, Timóteo deve ser vigilante não apenas pelo bem de sua própria alma, mas por todos aqueles cujo cuidado lhe foi confiado.

Muita ênfase tem sido dada nos dias de hoje à adoção dos idiomas do mundo ao nosso redor para criarmos pontes com a cultura secular, cada vez maior e mais ampla. Se alguém olha as organizações e os websites evangélicos conservadores mais proeminentes, talvez seja perdoado por pensar que sensibilidade cultural e interesse pela arte estão entre as prioridades do ministério cristão. Bem, a motivação para tal é, muitas vezes, louvável: um desejo de levar as boas novas de Jesus Cristo a um mundo que está perecendo. Entretanto, por mais virtuosa que a intenção seja, esse intento tem, creio eu, eclipsado as dolorosamente óbvias e vitalmente importantes prioridades da visão bíblica da vida cristã em geral e do ministério em particular. Você já notou como o tempo “piedade” aparece tão raramente nas discussões do que é importante para o ministério hoje em dia? Como as palavras “piedade” e “piedoso” tem sido usadas quase em um sentido pejorativo? Como a “mentalidade celestial” tem sido vista por alguns quase que como o problema da igreja, ao invés do mundanismo e da idolatria pela cultura secular? É realmente uma cultura eclesiástica estranha, onde essas coisas agora são lugar comum.

Paulo, é claro, vivia em um mundo onde havia mais ignorância bíblica e mais ignorância e hostilidade para com o evangelho do que há hoje nos Estados Unidos ou até mesmo na Europa Ocidental. A solução dele para esse problema da natureza deslocada da igreja e de sua mensagem em relação à cultura subjacente não foi assimilação ou abandono das bases distintivas do comportamento cristão. De fato, foi bem o oposto. Veja, por exemplo, as preocupações dele sobre a vestimenta feminina em 1 Timóteo. Elas certamente não surgem de um desejo de fazer as mulheres se vestirem como beatas oprimidas. Não é uma questão de corte e costura propriamente dita que o preocupa. É que a moda das novas mulheres romanas – ambiciosas, independentes e sexualmente promíscuas – está se infiltrando na igreja e dando sinais àqueles de fora que as mulheres cristãs possuem o mesmo conjunto de valores que suas semelhantes seculares. O remédio de Paulo é simples: diga às mulheres que deixem claro, por meio de seu vestuário e comportamento, que elas não se conformam à moral social Romana da moda, mas tem seu referencial na palavra e nos padrões de Deus.

Esse princípio que Paulo aplica aqui às mulheres é aplicável, tão certamente, aos ministros: vigiem atentamente suas vidas. Isso enfaticamente não significa que vocês devem tomar o cuidado de aprender os idiomas do mundo ao seu redor. Significa que vocês devem ser diferentes, notavelmente diferentes. Suas vidas devem ser reguladas pelos padrões da palavra de Deus, não por algum equivalente cristão das páginas da Vogue ou da coluna de conselhos da Cosmopolitan. Vocês não devem buscar a aprovação do mundo nem ficarem particularmente surpresos ou aborrecidos quando o mundo, consequentemente, deixar de aprová-los.  Vocês são chamados para buscar a piedade; devem buscá-la não apenas para o seu próprio bem, mas também por aqueles cujo cuidado lhes foi confiado. Macaco vê, macaco repete: se você fala e se comporta de uma forma indistinguível do mundo ao redor, você pode esperar que o seu povo, o povo que te olha como exemplo, farão praticamente o mesmo; de fato, se a história serve como algo para fazermos julgamentos, você pode esperar que eles façam ainda pior. Ministros estúpidos, desleixados e imprudentes certamente produzirão uma congregação de pessoas estúpidas, desleixadas e imprudentes.

Além disso, Paulo instrui Timóteo a vigiar sua doutrina. Vocês hoje estão concluindo o seminário; espero que vocês considerem que o tempo no seminário não foi apenas desafiador, mas que também tenha sido um tempo de amadurecimento pessoal e de estabelecimento de amizades que durarão toda uma vida de ministério; mas também espero que vocês não vejam isso como o fim do processo de aprendizagem ou o último momento de luta doutrinária e espiritual que vocês experimentarão. O ministro deve estar sempre aprendendo, sempre lendo, sempre prosseguindo com seus estudos. O seminário provê um tempo de desenvolvimento das habilidades de estudo e lança as bases para uma boa teologia; ele não dá todas as respostas para todas as questões que lhes serão feitas nos anos que virão. Assim, meu comentário sobre o imperativo de Paulo aqui é: sejam constantes em seus estudos e criteriosos com o uso do tempo de estudo. A vida é muito curta para priorizar a leitura do segundo melhor livro de algum assunto. Certifiquem-se de estarem lendo sempre o melhor material que estiver ao alcance.

Além disso, certifique-se de que sua leitura reflete suas prioridades bíblicas. Por mais incrível que pareça, você é capaz de pregar o evangelho sem jamais ter visto algum filme, quanto mais a análise cristã do mesmo. E, acredite ou não, sua congregação pode ir para o céu na bênção da ignorância dos últimos best-sellers ou das dicas da Glória Kalil. Isso não é dizer que conhecer essas coisas é necessariamente errado; mas não deve ser a prioridade no tempo de estudo do ministro do evangelho, nem a prioridade no tempo em que o ministro estiver no púlpito. Vigiar nossas vidas e nossa doutrina é uma parte vital do nosso chamado ministerial; ver filmes e séries de TV não deve ser nada além de parte de nosso tempo de lazer, um pouco de diversão leve após um penoso dia de estudo.

É claro que uma das áreas em que os ministros são particularmente vulneráveis é a da pregação. O cristão da congregação tem a vantagem de sentar e ouvir a pregação da palavra semanalmente. A palavra que vem de outro, usando uma frase de Lutero, vem como exortação, correção e encorajamento. Mas para o pastor, não há a oportunidade de ouvir semanalmente a pregação da palavra, não há o recebimento regular da palavra pregada por outro, porque ele que é o responsável pela pregação da palavra para os outros no dia do Senhor. Assim, vocês precisam ser especialmente diligentes em se certificarem que vão aproveitar cada oportunidade que tiverem, por mais raras que sejam, de se sentar e ouvir a pregação a palavra, e fazê-lo em um espírito humilde e receptivo de oração. E vocês também devem tomar o cuidado de cultivar amizades com homens a quem podem prestar contas. Assim como Lutero tinha Johannes Bugenhagen como seu confessor e como alguém que poderia pregar a ele pessoalmente, quando necessário, vocês também devem procurar alguém assim para fazer o mesmo por vocês. O problema de tentar vigiar sua doutrina individualmente é que nossos próprios corações estarão sempre inclinados a nos desviar. A palavra que vem de fora, mesmo que em particular, por um amigo próximo, não respeita as tendências hermenêuticas pecaminosas de nossos corações. Certifiquem-se de que escolheram seus amigos sabiamente, mantendo-se longe dos que sempre concordam com tudo, que sempre te elogiam em tudo e, tendo feito isso, certifiquem-se de ouvir atentamente tudo que seus amigos lhe disserem.

Há, inevitavelmente, muito mais nesse curto versículo de Paulo do que eu possa abordar nesse breve discurso. Posso terminar indo das alarmantes recomendações para concluir com algumas palavras de encorajamento? O evangelho é o poder de Deus para salvação. A grande obra de Cristo é suficiente não só para tornar a salvação possível quanto para fazê-la relevante na vida dos indivíduos. Conforme você atenta para sua vida e sua doutrina, confie que o Senhor que te comprou com seu sangue também dará todas as coisas para aqueles que pedirem e aperfeiçoará neles a obra que já começou. Preste muita atenção na sua vida e na sua doutrina; regozije, pois o poder do evangelho que vocês proclamarão daqui em diante não reside em vocês, mas nAquele que governa acima de todas as coisas.

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Traduzido por Filipe Schulz | Reforma21.org | Original aqui

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