Escolhidos para a salvação

por Robert Murray M'Cheyne

“Mas nós, devemos sempre dar graças a Deus por vocês, irmãos amados pelo Senhor, porque desde o princípio Deus os escolheu para serem salvos mediante a obra santificadora do Espírito e a fé na verdade.” (2 Tessalonicenses 2.13)

Quando viajamos por países papistas, onde as pessoas se curvam a imagens de madeira e pedra, e onde a Palavra de Deus é proibida, a mente de um crente se volta para as terríveis palavras nos versículos anteriores, com um sentimento de tristeza indizível, e, novamente, quando a mente divaga dessas regiões desoladas para o pequeno rebanho de crentes amados da Escócia, ela percebe o porquê do sentimento alegre que Paulo expressou ao escrever estas palavras: “Mas nós, devemos sempre dar graças a Deus por vocês, irmãos amados pelo Senhor” (versículo 13).

1. Somos ensinados aqui que Deus é soberano na escolha das almas que são salvas.

(I) Ele é soberano na escolha de homens e anjos não rebeldes.

Nós lemos na Bíblia sobre duas grandes apostasias contra Deus. A primeira ocorreu no céu. Lúcifer, filho da manhã, um dos mais brilhantes querubins ao redor do trono, se rebelou por orgulho, juntamente com miríades de santos anjos. “Eles não guardaram o seu principado, mas deixaram a sua própria habitação”. “Pois Deus não poupou os anjos que pecaram, mas os lançou no inferno, prendendo-os em abismos tenebrosos a fim de serem reservados para o juízo.” (2 Pedro 2.4). A rebelião seguinte foi no paraíso. O homem acreditou em Satanás e não em Deus, e comeu do fruto proibido. “Pela desobediência de um só homem foram todos constituídos pecadores.” Ambas as famílias pecaram contra o mesmo Deus, quebraram a mesma santa lei, caíram sob a mesma maldição, e foram condenadas ao mesmo fogo. Mas aprouve a Deus, em infinita compaixão, fornecer uma forma de perdão para algumas dessas criaturas perdidas. Ele determinou salvar alguns “para o louvor da glória da sua graça”. Mas quem ele salvará – homens ou anjos rebeldes? Talvez as hostes não caídas do céu implorassem que os seus outrora irmãos fossem tomados, e os homens abandonados. Eles poderiam ter dito que a natureza angelical era maior e mais nobre, e que o homem era um verme. “Ó profundidade das riquezas, tanto da sabedoria como do conhecimento de Deus!” Ele não poupou os anjos. Ele passou pelos portões do inferno, e não ergueu a cruz do Calvário ali. “Pois é claro que não é a anjos que ele ajuda, mas aos descendentes de Abraão.” (Hebreus 2.16).

(II) Ele é soberano na escolha dos países que têm a luz do evangelho.

Todas as nações são igualmente perdidas e vis aos olhos de Deus. “Ele fez de mesmo sangue todas as nações dos homens, para habitarem sobre toda a face da terra.” E, ainda, quão diferente foi a forma como Ele lidou com diferentes povos. Por que Deus escolheu Israel para ser um tesouro peculiar para Si, e lhes entregar oráculos divinos? Foi porque eles eram mais justos do que os outros? Não, pois isso é expressamente negado: “Sabe que não é pela tua justiça que Jeová teu Deus te está dando esta boa terra para a possuíres; porque tu és um povo de cerviz dura.” (Deuteronômio 9.6). Nem foi por conta de sua grandeza: “O Senhor não tomou prazer em vós nem vos escolheu porque fôsseis mais numerosos do que qualquer povo, pois éreis o menor de todas as pessoas, mas porque ele o amava” ( Deuteronômio 7.7). Novamente: por que a China, com seus milhões, ficou fechada sob muros por séculos, e foi abandonada à escuridão dos seus ídolos vãos? Por que a Índia foi deixada sob as cadeias cruéis do Hinduísmo? Por que a África foi praticamente entregue à bruxaria e superstição? Por que o belo rosto da Europa foi quase entregue às ilusões do homem do pecado, e por que a nossa própria ilha sombria tem sido escolhida para ser por muito tempo o mais brilhante repositório da verdade em todo o mundo? Somos melhores do que eles? Não, de modo algum. Há pecados cometidos entre nós que envergonhariam os pagãos. “Seu caminho é de santidade.” “Terei misericórdia de quem eu quiser ter misericórdia e terei compaixão de quem eu quiser ter compaixão.”

(III) Ele é Soberano na escolha das pessoas mais improváveis ​​para serem salvas.

Você esperaria que a maioria dos ricos fossem salvos. Eles têm mais tempo para estudar as coisas divinas, não são molestados pelos temores da pobreza, pois podem obter todas as vantagens. Contudo, escute a Palavra de Deus: “não escolheu Deus os que são pobres aos olhos do mundo para serem ricos em fé e herdarem o Reino que ele prometeu aos que o amam?” (Tiago 2.5). Novamente, você imaginaria que Deus teria escolhido o sábio e erudito, para ser salvo. O evangelho é um assunto de profunda sabedoria. A Bíblia foi escrita em línguas antigas, difíceis de serem alcançadas. E os homens educados geralmente são  livres de preconceitos a que as pessoas comuns estão sujeitas. Contudo, escute a palavra de nosso Senhor: “Graças te dou, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque tu ocultaste estas coisas aos sábios e entendidos, e tu revelaste aos pequeninos. Mesmo assim, Pai, porque assim pareceu bem aos teus olhos.” Você imaginaria que certamente Deus salvaria as pessoas mais virtuosas do mundo. Ele é um Deus de pureza, que ama o que é sagrado e, embora ninguém seja justo, não, nenhum, alguns são muito menos manchados pelo pecado do que outros. Certamente ele adquirirá estes. O que diz o Senhor Jesus aos fariseus? “Os publicanos e as meretrizes entrarão nos céus antes de vocês.” Jesus deixa que o jovem rico se vá, triste, enquanto o Rei da glória entra no portão de pérolas da Nova Jerusalém com um ladrão lavado em Seu sangue do seu lado.

Se a minha alma é salva, não devo dar graças? Se os ministros são obrigados a agradecer a Deus pela salvação gratuita de seu povo, quanto mais nós estamos obrigados a louvá-Lo por nos salvar. Eu não sou melhor do que um anjo rebelde. Demônios nunca rejeitaram a Cristo como eu fiz, e ainda assim Ele passou por eles e me salvou. Eu não sou melhor do que um chinês ou um hindu, e, ainda assim, a graça passou por milhões deles e veio até mim. Eu não era melhor do que a roda de escarnecedores, talvez pior do que a maioria, mas tenho certeza que posso dizer: “Tu livraste a minha alma do inferno mais profundo”. Glória a Deus Pai, que me escolheu antes do mundo existir. Glória a Jesus, que passou por milhões e morreu por mim. Glória ao Espírito Santo, que veio gratuitamente em amor  e me despertou.

2. Somos ensinados aqui que Deus escolhe o meio, assim como o fim.

“Ele nos elegeu para a salvação, pela santificação do Espírito, e fé na verdade”. O primeiro passo que Deus escolhe para seu povo é a “fé na verdade”. Deus não escolhe os homens para saltar de seus pecados para a glória. Antes, Ele envia gratuitamente o Espírito para ungir os olhos, derreter seus corações, para persuadir e capacitá-los a abraçar a Cristo, gratuitamente oferecido no evangelho. Uma fé simples e sincera na verdade é a primeira marca de que fomos escolhidos para a salvação. ” Todo aquele que o Pai me dá, esse virá a mim.” Eu fui a Jesus? Então, sei que sou um daqueles que o Pai Lhe deu antes que o mundo existisse. Eu realmente creio na verdade conforme ela subsiste em Jesus? Então Deus me escolheu para a salvação. O segundo passo que Deus escolhe para seu povo  é a “santificação do Espírito”. Está escrito: “Depois que crestes, fostes selados com o Espírito Santo da promessa” (Efésios 1.13). No momento em que a alma se apega ao Senhor Jesus, o Espírito Santo faz Sua morada em nossas almas; Ele permanece lá para sempre. Ele transforma a gaiola de pássaros imundos em um templo para o louvor de Jeová. Ele torna a alma toda gloriosa por dentro. Ele destrói o domínio do pecado, Ele enche, vivifica, renova todo o homem interior. Já recebi o Espírito Santo? Há o selo celeste em meu coração, inculcando-me as características e a mente de Jesus? Tenho a santificação do Espírito? Então, tenho a clara evidência de que a minha vocação e eleição são certas. Eu posso olhar para a minha eleição antes que o mundo existisse, e adiante para a minha salvação quando tudo se consumar. Quão tola é a presunção daqueles que dizem: “Se eu não for eleito, não posso ser salvo, não importa o que eu faça; e se eu sou eleito, serei salvo da maneira como eu viver”. A resposta é simples, seja você eleito ou não, não pode ser salvo sem crer na verdade e ser santificado pelo Espírito. O que está escrito no livro do Cordeiro da vida, eu não sei, mas o que está escrito na Bíblia Sagrada, eu sei: “aquele que crê será salvo; quem não crê será condenado”. E “sem santidade, ninguém verá o Senhor”.

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Traduzido por André Lima | Reforma21.org | Original aqui

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